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Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

"Tara perdida"

por todas as crianças perdidas, listas intermináveis de uma dor infinita...

Existem momentos em nossas vidas que jamais conseguimos esquecer. Ou porque foram de tal modo dolorosos ou pelo seu inverso. Ou simplesmente porque nos fizeram, como neste caso, sorrir por dentro e nos marcaram.
Corria o verão de 1991,  julgo não me falhar a memória. Num daqueles dias em que uma boa esplanada ao pé do mar nos chama mais do que qualquer outro lugar.
Mas não, fossem quais fossem as razões, a família estava reunida em torno da mesa e almoçava placidamente, num daqueles almoços que parecem não ter fim, acima de tudo porque o não desejamos.
As crianças, filhos e sobrinhos, brincavam alegremente, sujavam-se e espalhavam os sumos por cima deles e das mesas. Não adiantavam ralhetes, eram demasiado  pequenos  e estava-lhes na massa do sangue.
Sobre a toalha de xadrez garrafas vazias contavam a história líquida daquele dia.
A determinado momento a minha filha Rita, então com 7 anos e a frequentar a 2ª Classe, fixou-se em leituras de rótulos e embalagens. Até ai nada de estranho. Quem a conhecia sabia daquela “queda” para as leituras em tudo o que era sítio.
As conversas cruzadas, as piadas e as graças continuaram entre nós, os adultos e, entre as crianças a atenção prendia-se em torno das leituras da Rita.
De repente o seu rosto ensombra-se. Os olhos, imensamente verdes, abrem-se de espanto e cobrem-se de uma névoa a ameaçar tempestade… Como íman, todos olhámos em sua direcção. Eu, em especial.
- O que foi filha? Não sabes ler alguma coisa? Posso ajudar?
Abanou veementemente a cabeça e uma lágrima ameaçou rolar o rosto. Mais inquieta ainda insisti:
- Diz lá filha, que foi? Que tens?
A Rita pegou na garrafa à sua frente e deu-ma:
- Mamã… “Sem retorno. (es)tara perdida". 'Tá perdida mamã… tá perdida, como o mano se perdeu na praia naquele dia …
“Sem Retorno. Tara perdida”.
Escusado será dizer que levei largos minutos a tentar acalmá-la. A tentar explicar o sentido de “Tara perdida”. E a fazê-la entender que as garrafas nunca seriam “crianças perdidas”. Eram seres sem alma, apenas matéria. Vidro no caso, sem retorno e sem valor se devolvido. Restava reciclar e nesse tempo o conceito em Portugal ainda era muito pouco difundido. Definitivamente, a nossa garrafa estava perdida.

___
A vós,  meus filhos queridos, Rita e João, por todas as crianças que, ao invés do segundo,  perdido e, felizmente reencontrado,  não souberam mais do abraço de seus familiares ...
Pelo "D... ", pelo "R...", por todos os meninos/adolescentes que partiram e  que hoje lembro com carinho e saudade...


Republicação, publicado aqui em 27 de Maio de 2008.
Imagens da net

11 comentários:

Justine disse...

Que história tão encantadora, neste dia especial!
(e que saudades-sempre, sempre- nós temos dos nossos filhos pequeninos)
Abraço forte:))

Rogério Pereira disse...

Pungente e belo, como sempre... Promete-me Cara artesã-de-palavras-belas-a-quem-insisto-chamar-poeta que voltarás a editar exte texto, por inteiro em 20 de Novembro o dia verdadeiro. Prometes?

Um brasileiro disse...

oi. tudo blz? cheguei ate aqui e gostei. muito interessante. apareça por la. abraços.

manuela baptista disse...

um abraço aos filhos

de uma Senhora que escreve tão bem

perdidos reencontrados cascos de vidro com os quais poderíamos fazer um palácio

que estou certa, brilharia!


manuela

Lídia Borges disse...

As crianças são seres realmente mágicos.
Este episódio que nos conta é delicioso, não obstante as lágrimas sentidas da Rita.
(Também tenho uma Rita, agora com 19 anos)Mas ainda ontem era pequenina...

Beijo meu

Carlopfler disse...

Olá minha querida e doce Mel :)
Obrigada, amiga, pelas tuas palavras. Lembro-me muitas vezes de ti e, sempre com muita admiração! Gostava de escrever como Tu; seria um sonho! ehehehe
Beijinhos grandes e com muitas saudades.
Nunca te esquecerei!

Adriana de Adriano disse...

Olá gostei muito do teu blog e estou seguindo ele já, aproveito a ocasião e convido vc a dar uma olhadinha no meu blog e , espero que goste e se quiser seguir será um prazer ter vc me seguindo.. Bjus
http://algumascoisasqueeuescrevo.blogspot.com/

Nilson Barcelli disse...

Ler rótulos em criança é muito perigoso... rsrs...
Uma história engraçada, que na altura teve o seu quê de triste...
Querida amiga, bom Domingo.
Beijos.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

As crianças surpreendem-nos constantemente. Obrigado pela republicação.

Hugo de Macedo disse...

...sem palavras.

Filoxera disse...

Do que as crianças se lembram... Arrepiante, este seu texto de homenagem...
Beijinhos.

Porque gosto muito

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posia, companheira fidelíssima dos meus dias ...

a minha homónima, "Mel"

a minha homónima, "Mel"
A nova tartaruga do Oceanário de Lx.

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Direitos de Autor

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