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Segunda-feira, 11 de Julho de 2011

Hélder ou a encenação do diálogo

somos o lugar e o domicílio de todas as solidões"
Constantino Corbain

Na "hora do lobo" escreveu, quando lhe entregaram para que preenchesse, um formulário complicado.   No espaço destinado ao "local" , campo exíguo por sinal,  apertou as palavras, contraindo-lhes o ar "domicílio de todas as solidões". Deslizou a mão não fosse esborratar a folha e no fim, no campo das Observações, declarou: Morte natural, nada mais a declarar. Para que constasse.  
Levantou-se rígido, encaminhou-se direito ao galinheiro, sangrou o galo capão, molhou o indicador. Depois colocou no local da assinatura, a sua marca própria, de analfabeto funcional.  Olhou o impresso, transparente como a linfa, última invenção da sociedade burocrática. Max Weber haveria de jubilar se conhecesse tal incremento da tecnologia. Sorriu de antecipado gozo. Cumprida a missão. Leu [se] em voz alta. Havia falha de informação – não sabia a hora ou sequer a data exacta  a averbar em certidão, o dia de morrer – o seu.  Juiz em causa própria, morrera em todos eles,  como vivera. Disso tinha convicção plena. Sabia que, águas depois,  marés mais tarde, que o cão fiel companheiro de olhos doces de saudade (também ele há vários anos solitário), seguidamente  à hora da  gata de olhos de porcelana e miar de fogo.  A tartaruga, inexpressiva, como convém a tartaruga que se preze, mantinha a obrigação de exigir a cabeça fora das costas a arrastar na tijoleira a  carapaça.  Contudo, o brilho dos olhos estava há um horror de vidas riscado de solidão. Não contava, portanto. Companheira, essa, voara como um fumo em dias vendaval -  não lhe sabia nem queria saber o onde ou para onde nem com quem. Ficara-lhe apenas dela o cheiro em todas as fendas da casa, em todas as gavetas que se recusava a abrir. Em todas as roupas que ela usara e deixara suspensas em cruzetas, dobradas a rigor dentro de cómodas, a par com saquinhos cheios de lavanda e alfazema. Ficara-lhe dela  os pentes, as escovas ainda com resquícios de cabelos (eram de fogo os cabelos, talvez de cobre, não sabia muito bem…), ficara-lhe ganchos, travessas, elásticos e bijutarias de algum valor,  sobre a cómoda de nogueira em  caixas pintadas pelos seus dedos – via claro agora que nunca os beijara, nem chupara. Teriam sabor diferente dos da Filipa ou dos da Joana? Os dela, de Rosália, a que saberiam? Inquietou-se. Um nó estranho apertou-lhe a maça do pescoço. Desapertou-se. Dela  ficara-lhe o cheiro impregnado na cozinha das suas compotas, dos bolos, das iguarias com que durante anos o mimoseara  e aquela mágoa a que chamavam dor de corno, por não ter sido homem para a segurar. Não lhe faltara com nada a não ser com o que, raios as parta, desejam as mulheres – um beijo ao amanhecer e outro, se possível mais longo e mais profundo, antes de dormir, Afinal, homem, podes nem acordar. Ou eu, quem sabe? Ou eu….
Em certos dias nem lhe respondia, noutros, Sim, sim, tá bem, até amanhã, dorme que se faz tarde,
Virava o rabo, olhava as frinchas das portadas, contava carneiros se não adormecia de imediato  – o que era raro –, Que falasse. Quanto a ele,  em dois tempo roncava,  C'os diabos era lá homem de lamechismos?  Beijos dava-os às moçoilas quando rapaz, se as apanhava a jeito num esconso em que as subia e as trepava por todas as colinas, em que lhes prometia a mesa farta do seu corpo.  Desse tempo, ficou-lhe o gosto, retomado a cada dia. Rosália era virgem quando a tomara sua e nunca passou desse estado a seus olhos ainda que neles bailassem luares a agourar a experiência íntima do excesso. Hélder era, por conseguinte canónico com a mulher e putanheiro com as demais. A sua era santa, e, se vinha em mácula – bebido ou tocado pelo pecado da carne fora de portas, não lhe tocava ao de leve,  nem para o beijo de boa noite, Tu vives no Paraíso, Rosália, sabes lá o que é o mundo. É cão, morde as canelas dum gajo, o mundo é mar traiçoeiro a virar traineiras mesmo quando se anuncia mar-chão,
Às vezes o Paraíso, respondia-lhe em surdina, mata mais que o Inferno, mata mais profundo que o mar de onde vens,  e tudo o mais. O fogo é lento e a água ferve em banho-maria, por anos e anos,
Tens tudo, nada te falta, Falta-me a vontade, Pois bem, sim, sim,  faz rendas e bordados, não te obrigo a fazeres mais nada. Já te olhaste em espelho? Não tens marcas de esforços,  estás lisa e luzidia, nem rugas tens (no corpo dela, havia,  sem que as visse, marcas intrigantes de violência –  iam e vinham, a espaços, como as marés  –  amareladas, pardacentas...)

Morreu quando tudo à sua volta começou a morrer, o bolor tomou conta do frigorífico, as plantas do jardim secaram em pleno Inverno, as orquídeas deixaram de florir, o lixo se acumulou pelos quatro cantos da casa.  Morreu no dia em que a viu no jornal na coluna da necrologia. A custo leu a notícia de letras demasiado pequenas para a graduação dos óculos. Recriminou-a, palavroso – era obrigação dela,   só dela, ter providenciado a consulta atempada do oftalmologista, as mulheres têm papeis destinados desde a nascença - cuidar dos pais, dos filhos, dos maridos, Vês Rosália, agora nem sei se estou a ler em condições ou se as letras bailam a enganar-me como tu,  mulher sem préstimo. As lentes estão desfocadas, que bicho ruim não morre nunca, Rosália, o que leio é maquinação tua, mandaste escrever estas palavras para te ilibares e me incriminares a de mim,   puta que te pariu,  ingrata,
                 “Hélder do Carmo encenou a morte de Rosália Lira durante mais de trinta anos de vida conjunta mas foi pelas mãos da própria que a peça subiu a palco", puta que a pariu, repetia para se ouvir,   foi ela quem assim escolheu.

Pela primeira vez em muitos anos sentiu a face molhada. Não chovia. As águas da ria subiram o sobrado onde se encimara. Por ali ficou. Puta que a pariu...


Imagem da net, autor desconhecido.

12 comentários:

AC disse...

Há quem queira moldar a realidade a seu jeito, trancando portas e janelas se necessário for. Mas é trabalho inglório, e disso dá conta a erosão da vida. Hélder descobriu isso demasiado tarde.
Mel, a sua escrita toca particularmente. Parabéns!

Beijo :)

Eva Gonçalves disse...

Belíssimo este relato de uma certa conjugalidade. Tantas vezes frequente, apenas conhecida dos próprios, e diferindo apenas no desfecho... o comum, é serem eles a partir, deixando-as libertas , eternamente presas...
Ainda estou a começar a ler-te mas gosto bastante da tua escrita! :) Beijinho

Fernanda disse...

Um conto maravilhosamente escrito que nos fale duma época não tão longínqua assim, amiga Mel.
Ainda há por aí muitos Hélder(es) e infelizmente poucas Rosália(s).

Quando os esposos não são amantes das suas mulheres e as querem imaculadamente puras, merecem, sem dúvida, um belo par de cornos e rios de lágrimas a molhar-lhe as faces.

Amei ler-te, como sempre.

Beijinho

Lídia Borges disse...

Mel,

é um retrato vivo da vida a dois no nosso panorama cultural. O homem sempre "à boca de cena" e a mulher servente tão pura que nem desejos tem. Ai, se os tem!...
E, contrariamente ao que se possa pensar, não se situa assim tão longe, no tempo. A mulher conquistou o direito a ter uma carreira, a realizar-se profissionalmente, mas para isso teve de se superar mil vezes, ser imensa (como diz a João) e acumulara tarefas, continuando a ser a primeira responsável pela casa, pela educação dos filhos, pela prestação de cuidados aos idosos... A mulher!...
"Que falasse. Quanto a ele, em dois tempo roncava, C'os diabos era lá homem de lamechismos?"
Um tema actual, um texto maravilhoso.

Um beijo

Não sei dos poemas. Vou procurar!.

Pastelaria disse...

Olá Mel

Antes de mais ...parabéns pelo blogue ! :)

gostei do que li ...

Gostaríamos muito que desse uma vista de olhos no projecto DVB- Digital Video Book ,de saber a sua opinião e qual o interesse em desenvolvero seu trabalho neste novo formato.

"Transformamos" os seus trabalhos (já editados em livro, ou não), num DVB- uma ideia original da Pastelaria Studios Productions

O projecto é recente, é uma inovação, tal como explicamos no nosso blogue:

http://pastelariaestudios.blogspot.com/


É exactamente isso! os seus poemas seriam " trabalhados " em DVB . Um livro que se vê como um filme!

Não somos uma editora, prestamos essencialmente um serviço criativo.

A minha sugestão seria, enviar-nos a sua obra, e nós faremos uma análise e um orçamento de custos.

Posso adiantar que, por ser um projecto novo e, embora o trabalho criativo (audio, voz, imagem, construção do DVB, etc) seja bastante, queremos chegar ao maior número de autores de obras escritas, mesmo que essas estejam ainda na 'gaveta' ...



Fico a aguardar uma resposta e, qualquer dúvida ...estamos por aqui.

Um abraço
TMQ

pastelariaestudios@gmail.com

A.S. disse...

Obrigado Mel!
As suas palavras são o maior dos estimulos. Pode crer!
Espero que compreenda a falta de algum tempo para lhe deixar alguma palavra, mas nestes dias o tempo esvai-se como fumo!
Vou agora mergulhar nos seus belissimos textos!
Sublimes, como sempre. Sobre este texto, actual e excelente digo:
Porque é que o amor, nos corações magoados, magoa ainda com mais força um amor magoado?
Porque é que na fêmea bela, ainda pulsa o sangue de um amante findo?

O meu abraço fraterno Mel... sempre!

AL

Aquarela disse...

Ola amiga Mel... nem sempre consigo deixar aqui o meu comentario, mas além de dadorar tudo o que aqui encontro, de me sentir bem aqui ... gostava de lhe agradecer as palavras sempre simapticas de cheias de boas energias que deixa na minha "tela colorida"

Bem haja!!!
abraço

Maria João disse...

Mel

Este é um conto de mulheres... tantas mulheres... que sobem e descem o palco da vida, sem plateia, sem atenção e sem aplausos. Mergulhadas na sua solidão, na sua própria força e nos seus silêncios, são anjos de coragem que poucos chegam a conhecer.
Este é um conto de homens, também. Tantos homens... a quem a sociedade aplaude o estatuto, sem nunca o terem na verdade e que vivem tão perdidos e sós quanto elas, embora sem consciência disso.
Este é mais um fabuloso texto teu, em que em cada parágrafo, a vida se retrata, tão nua e tão crua como ela na verdade é. Embora muita gente a viva assim, a maioria nega-o. Uns por cegueira consentida, outros por vergonha da sua própria história.

Tu sabes o quanto me comovem os contos de mulheres! ( etiqueta que não dás a este texto, mas na qual ele se incluí integralmente. )

Um beijo amiga minha

Fernando Santos (Chana) disse...

Um conto espectacular....
Cumprimentos

Justine disse...

Magnífico conto, Mel! Belíssimo formalmente, pungente no retrato simultaneamente tão real e tão poético. Gostei muito!Obrigada
(Música adequadíssima...doce e triste!)

manuela baptista disse...

Hélder olhos de tartaruga morta

cão com cio
gata vadia
bruto como um diamante mal parido

Rosália aguentou trinta anos de uma encenação fatela, em que a actriz principal seria ou não ela

mais vale tirar a faca da gaveta e não possuir Hélder que possui Joana e Filipa que não possui nada

fazemo-los assim, Mel, aos homens, quando os embalamos e levamos à escola e não os deixamos pôr a mesa nem fritar as batatas nem escolher os pêssegos maduros

damos cabo deles e de nós numa formatação que ainda perdura num país suburbano, urbano e rural

perfeita seria a encenação deste seu conto, realização plástica deste espectáculo, objecto de cena

que eu não posso, mas gostaria de realizar, acredita?

um beijo

manuela

Virgínia do Carmo disse...

De todas as imensas qualidades da tua escrita sublinho hoje a sabedoria que lhe entregas.

Um grande, grande beijinho e muitas saudades

Porque gosto muito

Porque gosto muito
posia, companheira fidelíssima dos meus dias ...

a minha homónima, "Mel"

a minha homónima, "Mel"
A nova tartaruga do Oceanário de Lx.

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Direitos de Autor

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