água, pássaro ou tornado. Como as meias que escondera das vistas há minutos, irmanada na diáspora, na concepção binária de diferença, no deslocamento proximal a que se obrigava a si própria da, e na, até então, zona íntima de conforto. Determinada à luta volveu a si: abraçou-se, em cadência, dançou a dança dos pássaros a pique, dentro de si própria, dentro do turbilhão ciclópico das margens incomunicáveis, das águas íngremes, até à exaustão. Por fim, já a noite ia alta, tombou, algo binária, como folha rubra e lívida, na cama própria. Desejou o esquecimento mitigado do cheiro, do som, do sal da pele, em suma, o sono dos justos. Como um disco riscado, o blue fez o resto.
Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011
A dança dos pares
"Dançava, às vezes, por dentro de si mesma."
Baptista-Bastos
Dobrava-os meticulosamente, atenta às nervuras, aos canelados, aos canhões, estes últimos de diferentes alturas. Em tudo o mais, aparentemente iguais - uma tortura para quem gostava que não ocorressem falhas, trocas impróprias. Sobre o leito, meticulosamente feito, as roupas puxadas e repuxadas para que não ficasse vinco algum, eles, os peúgos pretos que tanto a irritavam. E, ao lado, a tortura análoga das suas próprias meias, que, sem saber muito bem como, nunca pareciam emparelhar. Como se, a cada viagem rotativa por dentro do tambor, exactamente como lera um dia de uma conhecida escritora, houvesse internamente ali, invisível mas eficaz e persistente, um monstro acéfalo, devorador que, não só surripiava alguns dos pares, como, pior, deformava, relaxava e descoloria outros. E talvez ai residisse o mais nefasto daquela história - no descolorir da imagem, no prolapso dos elásticos, no desbotar a cor inicial numa espécie de pasta mole, aguada, se perdia, irremediavelmente, e sem retorno possível, a forma das coisas. Ao seu olhar, fica ali algo sem préstimo, sem brilho e sem pujança. O amorfismo era, sem margem à dúvida metódica, no ser humano e na matéria invertebrada de um modo geral, algo que a tirava do sério. Amorfos seriam, por conseguinte, os pares dispares ali expostos.
Maria Leonor levantou-se. Num gesto desconexo empurrou os parceiros sobrantes para o fundo de uma cesta onde, regularmente, colocava a roupa por passar a ferro. O vime entrançado dava-lhe, ainda que ilusoriamente, a segurança de que a obra prosseguiria a bom termo - o engomar, bem entendido. Decidiu que não gastaria mais tempo a emparelhar peúgas - demasiado precioso lhe era o tempo. Do lado direito chegava-lhe, em jeito de abraço, um blue. Não um qualquer som de um qualquer tema, mas sim um blue. Sorriu. Na verdade, a sua vida estava incessantemente pautada por "não coincidências". A forma musical agora ouvida era-lhe “utilitária“. Atentou no uso de notas cantadas e tocadas numa frequência baixa, nas estruturas [sempre] repetitivas. Construiu mentalmente um puzzle de imagens metafóricas. Veio-lhe em memória a fé, a espiritualidade, as comunidades escravizadas, e, óbvio, as subtis manifestações de protesto contra a escravidão servil dos dias. Os caminhos ásperos e palcos aveludados. E os passos, os pés, agasalhados e simétricos, aninhados interinos nas formas melódicas, na harmonia dos traços e das notas - as formas puras de escapar dela...
Deixou-se impregnar dos sons, de todos os que, vindos dali, a tomavam sua. Os pés, soltos das sapatilhas imaginárias, desnudos em revelação do calcanhar de Aquiles afagaram a madeira, provocando-lhe uma onda de calor nas pernas igualmente desnudas. Solitária na dança, rodou a roda dos enjeitados, determinada a ser
água, pássaro ou tornado. Como as meias que escondera das vistas há minutos, irmanada na diáspora, na concepção binária de diferença, no deslocamento proximal a que se obrigava a si própria da, e na, até então, zona íntima de conforto. Determinada à luta volveu a si: abraçou-se, em cadência, dançou a dança dos pássaros a pique, dentro de si própria, dentro do turbilhão ciclópico das margens incomunicáveis, das águas íngremes, até à exaustão. Por fim, já a noite ia alta, tombou, algo binária, como folha rubra e lívida, na cama própria. Desejou o esquecimento mitigado do cheiro, do som, do sal da pele, em suma, o sono dos justos. Como um disco riscado, o blue fez o resto.
água, pássaro ou tornado. Como as meias que escondera das vistas há minutos, irmanada na diáspora, na concepção binária de diferença, no deslocamento proximal a que se obrigava a si própria da, e na, até então, zona íntima de conforto. Determinada à luta volveu a si: abraçou-se, em cadência, dançou a dança dos pássaros a pique, dentro de si própria, dentro do turbilhão ciclópico das margens incomunicáveis, das águas íngremes, até à exaustão. Por fim, já a noite ia alta, tombou, algo binária, como folha rubra e lívida, na cama própria. Desejou o esquecimento mitigado do cheiro, do som, do sal da pele, em suma, o sono dos justos. Como um disco riscado, o blue fez o resto.
Acordou matinal, dando-se conta que, no dobrar de pares apenas suas as nervuras das folhas persistentes a revestir de incenso e mirra as lombadas dos cadernos da vida. E nada mais.
Tela: Júlia Calçada
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)




12 comentários:
"...dançou a dança dos pássaros a pique, dentro de si própria, dentro do turbilhão ciclópico das margens incomunicáveis, das águas íngremes, até à exaustão".
Olá querida Mel!
Esta dança de que falas parece embalar ideias inconformadas, consciências emergentes de uma nova ordem a impôr aos "cadernos da vida".
Mais um texto oportuno e muito belo!...
Um beijo
Minha querida amiga, Mel
Há quanto tempo...
E, qdo chego, te encontro a dançar, dançar, até cansar e estirar-te sobre a cama...
Que belo texto.
Tenho saudades.
Bjos
Deus te abençoe.
Miriam
Mas de onde é que eu conheço a Maria Leonor?
Lindo e soberbamente bem escrito.
Beijinho e saudades, Mel
Belíssimo texto.
Tens um fio narrativo com fôlego para o romance...
Beijos, querida amiga Mel.
Obrigada Mel, pelo êxtase da leitura, pela companhia ao longo dum tempo sem tempo. Meu afetuoso abraço. Felicidades sempre.
tal como à Virginia, também a mim a Maria Leonor, parece extremamente familiar! será uma "não coincidência?"
pela tua mão, uma dança perfeita no palco das metáforas.
belo também o quadro, de uma outra boa amiga.
beijinhos, Mel! saudades...
Como danças bem por dentro de ti própria! e, ainda assim, num gesto de generosidade, consentes em deixar escapar um pouco do teu íntimo, para que outros possam dançar, contigo, ao som da música que imaginam ouvida por ti, enquanto danças. lindo. tudo.
Belíssimo "pas de deux"! Não constitui novidade o facto de eu ser fã da tua escrita, em poesia ou, como no caso presente, em prosa. O que eu gosto, mesmo, é de ler-te, Mel, não importa o género, não importa o formato. Não deixes de escrever, minha querida. Sei que fazes muito bem tantas outras coisas, mas julgo não me enganar quando afirmo que a escrita é o teu dom supremo.
Não posso deixar de referir, por razões do coração, que tu bem conheces, que muito gostei de aqui ver, associada ao texto, a pintura "pé-ante-pé", da minha querida prima e amiga Júlia Calçada. Que bem combinam as vossas artes! Fico feliz.
Beijos.
Lindo minha amiga para mim é sempre um deleite ler-te. Beijos com carinho e um feliz Natal com muita saúde, paz e muito amor.
FELIZ NATAL 2011
Manuel
Olá, amiga
Passei para desejar um ótimo natal e um novo ano cheio de felicidade
Grande abraço
Runa
Passo para lhe desejar um Feliz Natal, cara Mel
Enviar um comentário