Nota post scriptum : Flauta de osso
"Os mais antigos instrumentos existentes(...) feitos de ossos de rena (10.000 a.C.)..."
Da prosa poética, aos ensaios, aos contos...
Provavelmente, isso trará alguns problemas. Creio, no entanto, que há alguma coisa de significativo no facto de eu nem sequer ter a sensação de haver escrito(...).
Tenho, ao contrário, a sensação de que os livros são escritos através de mim, e, logo que acabam de me atravessar, sinto-me vazio e em mim nada fica".
Claude Lévi-Strauss, in Mito e Significado
A poesia de Mel de Carvalho pede certamente uma chave ao leitor. Não se trata de habilidade literária ou conhecimento acadêmico, mas uma postura no mínimo humilde que se traduz no encantamento de quem lê pura poesia.
A chave da sensibilidade decerto não é igual para todos, pois abrir o coração é se deixar invadir sem restrições às emoções, no mínimo, desconhecidas.
Mais que o interesse de desvendar os mecanismos da escrita e seus efeitos, limito-me aqui a ressaltar o exercício da leitura emocionada, sorver os cenários, os jardins do mar de uma personagem de cores surrealistas, de dores e delírios invulgares encarnados nessa autêntica “sereia das falésias”.
Abençoada pela riqueza verbal e manejo perfeito da palavra escrita, a poetisa compõe um universo singular, sem parâmetros noutros escritores de vulto. É uma nova poesia, moderna no seu lapidar, sem o rigor da métrica. No entanto, infinita no ritmo, na canção que subtende, embalando o amor, a dor. Do sombrio ao limite da luz.
Mel diz sempre no mais além da palavra, sem as travas que encerram a sensualidade do feminino, ainda que o gozo sobreviva à sombra e na dor (sempre provisória). Pois nas canções poéticas de Mel de Carvalho, eu ouço clara a canção da esperança e da viabilidade do amor.:
“Morrer d’amores
sem cuidar de atentar de limites ou de saber d’interdito.
Morrer morrendo num amor maior e infinito.”
....
“Digo-te silêncio!
Digo-te olímpico canto
música anelar soprada nos alcatruzes p’los ventos.
Digo-te perfeição, plenitude imaculada.
Digo-te caminho, vereda, calçada, avenida reflorescida de lilases…
[digo-me nua, digo-me tua …]
Digo-te de novo e uma vez mais,
silêncio esculpido das águas, das águas esvaecidas p’las noras em lúpulos trevos, pés-de-galos e logo escorrido ao mar por todos os ralos.
Digo-te calma
[digo-me alma, digo-me alma desnudada, desventrada …]"
.....
É a poesia que desfaz o interdito e tece delicada renda sobre a própria pele, desnudada em cada poema, para os olhos de quem almeja alcançar a plenitude da poética na palavra, eis a chave!
Sandra Fonseca, psicóloga e poeta brasileira
in Luso-poemas.net
12 comentários:
"subo os meus olhos baixos, a ser-te semente terra e esteira e lavra - olho-te semeado na palma da tua alma. olho-te, já te vendo", Cara artesã-de-palavras-belas-a-quem-insisto-chamar-poeta...
Escreves porque escrever te salva e nunca um engano te pareceu tão doce. Imagino!Imagino, apenas.
Beijo meu
L.B.
Belíssima prosa poética.
Gostei muito. Parabéns pela excelência do texto.
Querida amiga Mel, bom resto de semana.
Beijo.
Olá!
Lindo! Gostei muito de ler o teu texto!
Bj
Mena
Que a felicidade te acompanhe sempre e que ela seja
sua companheira constante no decorrer desse Ano de 2012.
Sigamos avante, para o alto e com um sorriso no rosto! Paz e luz.
E já no final dessa primeira semana de Ano Novo.
Desejo um feliz e abençoado final de semana.
Vou continuar te seguindo e te amando sempre.
Beijos no coração.
Evanir
ler-te é sempre caminho para outra dimensão. tudo o resto desparece perante o ritmo e a intensidade das tuas palavras.
genial
um grande beijinho, amiga
Rosarinho
...o princípio é a palavra, a partilha. Grata Mel.
Abraço
A desejar-lhe, Mel, um ano cheio de coisas boas e que, para nós, seus leitores, continuem e frutifiquem os seus belos trabalhos literários.
Passei, li.Fantástica!
Amo prosa poética.
Daí a minha grande vénia!
bj
A tua prosa poética de excelência! Novidade? Não. Confirmação! E como é bom reiterar este sentimento, pela enésima vez! E mais: será possível a tua escrita estar cada vez melhor?
Beijos grandes.
O aconchego, a ternura, a partilha, o avivar de eternos brilhos...
Que maravilha, Mel!
Beijo :)
É arrebatador - sempre - ler-te!
Uma vertigem boa, como aquela que nos dá um momento de felicidade!
Abraço
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